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15/11/2018 ás 19h54 - atualizada em 15/11/2018 ás 19h57

Redacao

Vila Nova do Piauí / PI

Crônica: Com licença, Doutor! (Por Francisco de Assis Sousa)
Vê se pode?! E os mesmos, envaidecidos, fazem questão de confeccionarem um receituário, um carimbo, uma placa, com o Dr. antes do nome. “Dr. ou Dra. fulano de tal”.
Crônica: Com licença, Doutor! (Por Francisco de Assis Sousa)
Imagem: Reprodução



“Em dois anos, cubanos ganham preferência a médicos brasileiros”, estampou no dia 11 de agosto de 2015, o site de notícias UOL. O noticiário enviou o repórter Carlos Madeiro a pequena Craíbas, no semiárido de Alagoas, e constatou que o paciente que chega para ser atendido percebe logo uma diferença: a cadeira reservada a ele está ao lado da médica e não separada por uma mesa. "Quero a cadeira perto de mim porque é melhor, eu quero tocar na pessoa, olhar no olho, de perto. O paciente sente mais confiança. A medicina é humana, é importante ter essa relação mais próxima”, afirma Alba Marina Hernandez que está no Brasil há dois anos atuando pelo programa Mais Médicos.


A reportagem traz também o resultado de uma pesquisa recente feita pela Universidade Federal de Minas Gerais, que entrevistou 14 mil pessoas em 700 municípios do país entre novembro e dezembro de 2014, que os médicos cubanos receberam, em média, nota 9 (de uma escala de 10) pelo atendimento. 55% dos entrevistados deram nota máxima ao programa. Outros 77% garantiram que tiveram boa comunicação e 87% elogiaram a atenção e qualidade no atendimento. Na avaliação de uma paciente da cidade de Girau do Ponciano, localizada também no semiárido de Alagoas, “os médicos brasileiros sempre saem mais cedo, faltam ao trabalho. Os cubanos, não. Examinam sempre direitinho, atendem com mais proximidade. É diferente", afirmou.


Imagem: ReproduçãoPrograma Mais Médicos em ação.(Imagem:Reprodução)Programa Mais Médicos em ação.

Para a médica Idalis Rivero, a vinda ao Brasil é tratada como missão. "Claro que minha escolha tem também o lado financeiro, mas é mais do que isso: em Cuba, desde cedo, somos ensinados a ajudar as pessoas. Vim por isso. A sociedade médica daqui deveria se preocupar em fazer valer o código de ética, de ajudar mais as pessoas. Aqui se pensa demais em dinheiro", disse.


Dentre estas e outras questões, vários fatores merecem ser questionados e, um deles, é a figura do doutor. Para Alfredo Bosi, professor de literatura, titular da USP, em entrevista apresentada na noite do dia 23 de setembro de 2002, no programa Roda Viva, na Tevê Educativa, o brasileiro cultua muito o mito do doutor que, segundo ele, é uma das heranças coloniais que ainda temos e que está interiorizada. Pois, a mesma, surge carregada de autoritarismo e coloca, principalmente, o médico numa posição inatingível, distante do povo, como se fosse um semideus.


Imagem: ReproduçãoIdem(Imagem:Reprodução)Idem

Talvez seja essa a diferença que as pessoas estão encontrando quando são atendidas pelos médicos de Cuba. Os mesmos se apresentam como homens e mulheres que se postam, sobretudo, como ‘gente’, como alguém que é capaz de ouvir, que se colocam no mesmo patamar de seus pacientes. No Brasil, não é doutor somente quem concluiu um curso de doutorado. Estes, por muitas vezes, passam despercebidos. Para ser tratado como doutor tem que ser médico, advogado. Até enfermeiro, nutricionista – com todo respeito a esses profissionais - são chamados de doutores. Vê se pode?! E os mesmos, envaidecidos, fazem questão de confeccionarem um receituário, um carimbo, uma placa, com o Dr. antes do nome. “Dr. ou Dra.  fulano de tal”.


Em entrevista a revista Veja, na edição de 17 de Junho de 2015, o médico Claudio Lottenberg, presidente do Hospital Albert Einstein, de São Paulo, referência mundial no ramo, disse que é preciso uma revolução de humildade para a medicina realmente se aproximar dos pacientes. Assim, que tal uma espiadinha no comportamento dos cubanos! Não custa nada tentar!

Francisco de Assis Sousa, Com licença, Doutor!. In: Pedras que cantam, Teresina, 2018, p. 68

FONTE: Prof. Francisco de Assis Sousa

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