Já ouviu falar de Patativa do Assaré? Pois devia...

19 julho



Estava me lembrando de uma grande figura humana que tive o imenso prazer de conhecer e que partiu há 14 anos: o poeta popular Patativa do Assaré.

O nome dele era Antônio Gonçalves da Silva, e mal sabia o bêabá, como se diz, mas lia tudo que encontrava pela frente com o único olho que lhe restava. E fazia versos com tamanha perfeição que recebeu seis títulos de doutor Honoris Causa de universidades nordestinas, além de outras homenagens, e foi considerado um dos mais importantes poetas do Ceará, com 13 livros publicados.



Sim, ele era cearense. Nasceu, sempre viveu e morreu na cidade de Assaré, a 490km de Fortaleza. Numa casa de pau a pique, limpíssima, com retratos dos filhos, do Padim Padre Cícero e outros santos nas paredes. Teve 9 filhos com a fiel companheira Belinha, com quem esteve casado por 60 anos. Sua morte, 8 anos antes, o deixou arrasado.

O trabalho de Patativa se diferencia dos outros porque é muito oral. Ele sabia de cor todos os seus poemas, e são mais de mil! Imagine que memória prodigiosa... Vê-lo em ação era uma festa: ele recitava os versos usando a voz, a entonação, as pausas, o ritmo e a linguagem corporal, até os pigarros, para enfatizar trechos mais importantes. Um performer.
Suas apresentações se davam nas rádios e em festivais, sempre muito aclamado. Quase um superstar.
Houve uma época em que Patativa foi considerado subversivo, porque criticava com seus versos a dominação econômica sofrida pelos trabalhadores rurais. Ele mesmo se considerava “um lavrador que poetava” por isso sua poesia era comprometida com as lides da terra.



Patativa influenciou vários poetas nordestinos e foi parceiro de Luiz Gonzaga. O grupo pernambucanoCordel do Fogo Encantado foi um dos que bebeu na fonte do poeta para compor suas letras.

Em 2009, ano do centenário de seu nascimento, Patativa foi homenageado com o projeto Patativa do Assaré Encanta em Todo Canto. Nele, um caminhão percorreu 95 municípios do Ceará difundindo a poesia popular.



Em 1975 eu estava na equipe do documentário Nordeste – Cordel, Repente, Canção, da cineasta Tânia Quaresma, quando fomos na casa dele para entrevista-lo para o filme. Era a mesma casa onde tinha nascido, no seco sertão cearense. Muita poeira e sol de rachar. Patativa já estava um pouco surdo e não quis que a gente ligasse o gravador, nem a câmera, assim de cara. Sugeriu uma conversinha pra cada um se conhecer melhor.

- Não quero que você escreva porque eu prezo a minha voz. Prezo o que eu digo. Depois que a gente se conhecer, a gente grava.

E assim foi. Depois falou e falou. Ele e dona Belinha.
Isso faz muito tempo, mas me lembro de uma frase que ele disse e que me serve pra vida:
- A gente aprende a ler o mundo e a natureza, antes de aprender a ler as palavras. Só precisa ter olho pra ver e ouvido pra ouvir.




Já dona Belinha era a parte engraçada do casal.
Eles tinham um cachorrinho vira-lata, tipo Baleia, de Vidas Secas, com o nome de Resuvio. Assim mesmo. R.e.s.u.v.i.o. Eu perguntei: porque esse nome, dona Belinha? E ela explicou:
- Resuvio foi o vuRcão mais importante já inventado pelo homem. Ele é danado, e ninguém consegue parar. Assim mesmo é meu cachorro.

Isso tá no filme.
Muito amor por esses brasileiros...
Abaixo, Patativa recitando um poema.



Fonte: http://blognovodabeth.blogspot.com.br/
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