Crônica: UM DIA DE "SAMPA" (Por João Moura)


Atualizada em 23/02/2013 às 20h20

Por João Moura

Amanhece sem amanhecer, uma vez que boa parte do movimento sequer pára durante a vida noturna, e porque não clareia bem o sol que se atrapalha num emaranhado de nuvens baixas como quem quer despencar de uma só vez, junto a um imenso iceberg de poluição que se acumula da queima incessante de combustíveis e demais artifícios espalhado por um campo que mais parece um formigueiro.

Cracolândia – cartão postal meliante das almas à beira da inanição -; corpos desprovidos do senso de higiene humana e respeito por si mesmos. Polícia ativa, eficiente, helicópteros como libélulas sobrevoando favelas enquanto outra operação se processa por vielas estreitas e pouco iluminadas... Balas que tiram fino na cabeça do trabalhador informal – aquele do cachorro-quente, do picolé, malabaristas de semáforos e demais viventes que procuram esquecer que a vida poderia ser bem melhor...

Cogumelos do ABC que indicam tanto a prosperidade quanto o desalento do pulmão se estreitando de fuligem e gases tóxicos e debulhando milhares de veículos automotores nas pobres ruas fedidas que já não cabem mais nem pensamento. 

Câmeras espalhadas quase em todos os lados como olhos biônicos que não sorriem nem ultrapassam a barreira da observância mecânica; pernas ligeiras enfileiradas numa sincronia involuntária no descer do metrô ou no subir, em que pese mais aos sexos femininos, com aqueles desejosos homens lutando contra a ereção inoportuna e mal recepcionada. Um minuto é muito para quem ainda vai pegar outro metrô e mais dois ônibus não menos lotados.

Mendigos se alastram pela Praça da Sé como se fosse suas próprias casa o chão frio como o coração das pessoas que ali passam; defecam ao ar livre como a caracterizar uma verdadeira identidade latino-americana de muito na mão de poucos e muitos sem ou com quase nada.
Rodoviária do Tietê – uma bicheira humana – com trouxas e mais bugigangas em vários tamanhos e destinos a ser seguidos; gente que chega e sai ininterruptamente como a mostrar que o mundo não pára.

Villa Lobos com sua suavidade que se traduz no deslizar dos bumbuns nos selins das bicicletas daquelas mulheres que aparentemente amanheceram realizadas depois de uma noite de muito sexo e descanso... Crianças no contra-turno acompanhadas de seus pais com gesto de quem tem onde morar e o que comer.

Ibirapuera grande nos holofotes, mas nem tanto na realidade; verde por natureza e sempre com aqueles que se dedicaram uma vida toda a pagar impostos transformados em mensalões e demais espetáculos sociais – que dão voltinhas, já sombrios pelo peso dos anos e a decadência física... Ainda se arriscam em jogar pipocas aos peixes do lago ou agradar aves como patos, gansos entre outros...

Masp, exposições de arte – lembrando que sobreviver ao caos contemporâneo é talvez a maior delas. Estação da Luz, Barra Funda, Butantã, Hospital das Clínicas, Sírio-Libanês e suas dificuldades em suprir de tratamento de excelência toda a enorme demanda que chega de todo canto do mundo... Precisam vísceras, sangue, platinas, titânio, membranas, córneas, pele humana, para os incansáveis bisturis que se revezam dia e noite na procura de concertar os estragos dos motoboys feridos no trabalho que mais parece um Desembarque na Normandia e que são ligeiramente tragados pelos motoristas embriagados quando voltam das baladas.

Calor e, de repente, chuva de arrastar carros e derrubar árvores em cima de casas que caem sobre pessoas que vão parar no IML e assim as enxurradas contam histórias de ligeirezas por entre paredões de ferro e cimento a caracolar sem se dar conta da boca entupida de cada bueiro; é quando entram em ação os bombeiros que se precipitam para salvar vidas enganchadas nas sacadas dos prédios, isto, apenas pela consciência, sem extra nem mídia como um artista do crime, por exemplo.

São Paulo é mesmo um coração de mãe onde acolhe a todos sem perguntar nome, cor, raça, e, de tão generosa e sem malícia, tem a virtude da amizade ecumênica em que se livra de atentados pelo ódio de povos reprimidos em suas convicções e modus vivendi.

João Moura é professor e poeta. Autor dos livros: Coisa Humana e Mundo Distante.

Fonte: Tv Canal 13 / Prof. Francisco de Assis Sousa
Foto: Reprodução Internet

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