"Meu Deus, que é de nós?!" por Francisco de Assis Sousa

Por Francisco de Assis Sousa

A cada quilômetro que o ônibus percorria se tornava cada vez mais intensa à presença de sacolas, sacos plásticos, caixas de papelão, embalagens de refrigerante, garrafas e litros de vidro, papel higiênico, latinhas e demais afins. Por a janela, observava-se aquela imundice exposta nas margens da estrada, ocupando a frente das residências e, principalmente, os terrenos baldios. Restos de tijolos, telhas, cimento, argila, areia e outros utensílios da construção civil também se faziam presentes acompanhados de inúmeras carcaças de automóveis.

Ao percorrer por três estados da federação em um único dia, não foi difícil identificar os elementos que há em comum e os que diferenciam os mesmos. Primeiro, a configuração das cidades, o formato das residências, dos pontos comerciais, a torre das igrejas como primeiro elemento de visualização, o rosto das pessoas. Nas lanchonetes de beira de estrada, não faltavam os salgados - coxinha, pastel, pão de queijo - sucos artificiais e café com leite, sempre com a presença de uma senhora ou de um senhor obeso por detrás do caixa onde chama a atenção dos fregueses para a venda das fichas. Para os desavisados, ao chegar no balcão, o atendente vai logo dizendo: “tem que comprar a ficha!”.

A caatinga unia toda aquela gente. O semiárido, também. A presença de animais soltos na pista, especialmente o jegue, não fez falta em nenhum deles. No Piauí ouvi um “oxente”; no Pernambuco, um “visse”; e, finalmente, na Bahia, o famoso “ó paí ó”. O Velho Chico divide e une Petrolina e Juazeiro, Geraldo Azevedo e João Gilberto. O Piauí vestia uma camisa do River; na rua, um pernambucano aparecia de Santa Cruz; na Bahia, nenhuma vestimenta de clubes daquele estado, só chaveiros com o escudo do Vitória, numa lojinha de artesanato.

A partir da primeira cidade ultrapassada até a última que marcava o destino final, nem o moderno conjunto arquitetônico que denuncia o poder emergente que aflora na cidade de Petrolina, nem as águas frias e limpas do majestoso São Francisco chamou tanto a atenção, durante todo o percurso, como o depósito desordenado de lixo a céu aberto, símbolo maior da nossa pobreza. O terceiro mundismo a mostra, o descaso para com a educação e a cultura. A falta de compromisso com a formação do ser e do próprio humano para consigo mesmo.

O homem moderno foi capaz de apresentar inventos impressionantes, inclusive, que ajudaram e ajudam a prolongar a vida; porém, subtraído pelo consumismo exacerbado, primordial para a sobrevivência do capital, lamentavelmente, não foi capaz de resolver um problema elementar para a sobrevivência do planeta: o destino dado aos dejetos produzidos pela cloaca da sociedade industrial. “Meu Deus, que é de nós?!”

Fonte: Francisco de Assis Sousa é Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira no Ensino Fundamental em Vila Nova do Piauí e no Médio em São Julião-PI.

Email: frassis88@hotmail.com

Foto: Internet
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